“O jogo consiste em cem jogadores que caem de paraquedas numa ilha. Vão em busca de armas e equipamentos para matar os outros, enquanto tentam sobreviver. Ganha quem conseguir sobreviver mais tempo.”
É assim que a Wikipédia descreve o jogo mais popular dos últimos tempos – Fortnite.
E como este, há muitos.

Para as crianças e adolescentes “são só jogos em que o objetivo é sobreviver”; o que não deixa de ser verdade. São jogos com objetivos muito definidos, que estimulam a resiliência, a perseverança e a determinação; a cooperação e a comunicação quando são jogados em equipas. São jogos de estratégia que contribuem para o desenvolvimento de competências cognitivas e servem para treinar operações mentais como a identificação, comparação, análise, síntese, representação mental, raciocínio divergente, hipotético e inferencial.
Tinham muito para ser considerados boas atividades pedagógicas, mas há valores (ou falta deles) que “falam” mais alto e para os quais deveríamos estar alertados.
Estes jogos:
– Transmitem a ideia de que só “ganhamos” se destruirmos os outros.
– Têm implícito que “fazer o mal” tem consequências positivas para o próprio indivíduo, uma vez que o número de mortes provocadas é diretamente proporcional ao número de pontos conseguidos.
– Negligenciam a empatia, porque o jogador não vê, não se preocupa e não se coloca na posição daqueles que sofrem. Mata, e segue em frente.
– Provocam no jogador uma sensação de poder. No entanto, é um poder sobre (os outros) e não um poder para (para si e para os outros).
– São usados para dessensibilizar militares em alguns países.
– Viciam, porque os efeitos das más ações são imediatos. A rapidez da resposta à ação de destruição faz com que o jogador se fixe ao ecrã, numa dinâmica de ação-reação. Jogadores que deixam de jogar por uns dias sentem a ressaca.
– São os jogos mais produzidos, exatamente porque são os que mais viciam, os que mais são consumidos e os que mais geram dinheiro.

As crianças pequenas e a maioria dos adolescentes jogadores não têm consciência do que estes jogos têm por trás. Na verdade, não têm consciência porque não têm maturidade suficiente e, por essa razão, não deveriam ter poder de decisão sobre o assunto.
É importante perceber o que pensam e o que sentem sobre o jogo e sobre os momentos em que jogam, mas… Há decisões – sins e nãos – que são dos pais e não dos filhos, por mais que argumentem e por mais que digam: “todos os meus amigos jogam”.
A decisão sobre jogar ou não jogar deve ser dos pais.
A decisão deve ser dos pais e deve ser consciente.
A decisão deve ser dos pais e deve ser consciente, tendo em conta o conteúdo dos jogos e tendo em conta que os hábitos também nos educam. [Tantas e tantas coisas que fazemos só porque nos habituámos a elas… E, às vezes, nem nos demos conta de como esse hábito passou a fazer parte de nós…]
Queremos habituar esta geração a jogar assim? Queremos habituar – e educar – esta geração de acordo com os princípios que estes jogos transmitem?
Ficamos chocados quando sabemos que os “nossos” filhos tiveram uma briga na escola, que bateram naquele ou no outro, mas não nos importamos que passem horas a matar, mesmo que num mundo virtual?
As agressões físicas que acontecem na realidade têm consequências e, com elas, surge a necessidade de confrontação e resolução do problema e desenvolve-se a empatia. As crianças vêem que magoaram o outro, observam as suas expressões de dor e as suas feridas. Vêem, ouvem e pensam sobre a reação dos adultos que se aproximam e tendem a proteger aquele que sofreu. Nos jogos, na realidade virtual, a ação e a intenção da ação são muito mais violentas e negativas do que na realidade e as únicas consequências que desencadeiam são positivas…

Temo-nos apercebido que muitos pais não conhecem o conteúdo do(s) jogo(s) e isso preocupa-nos! Acreditamos que são quem melhor conhece, melhor quer e melhor sabe decidir para os seus filhos, mas fazemos questão de contribuir para que as suas decisões sejam conscientes e fundamentadas.
[Se puderem e quiserem, parem cinco minutos para ver e pensar sobre o que os vossos filhos vêem e fazem durante horas e dias. Depois, decidam!]
*O jogo Fortnite é gratuito e tem cerca de 45 milhões de jogadores. Em fevereiro deste ano bateu um record com 3,4 milhões de jogadores em simultâneo. Nas últimas semanas o jogo gerou mais pesquisas no Google do que, por exemplo, o termo Bitcoin.

Maria Tomaz
Abril 2018

Leave a comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *